RÁDIO: UMA ONDA (AINDA) SEM SINTONIA NA ESCOLA

Marcílio Rocha Ramos

Resumo


Rádio na escola é sempre anunciado como um meio facilitador da comunicação e socialização entre os jovens, como um recurso para o envolvimento com a comunidade, um promotor da ampliação das diversas e diferentes vozes do grupo – o que geraria autovalorização e auto-estima – e um dos instrumentos para o que alguns teóricos chamam de “desafio” deste século: a transformação de informação em conhecimento. Estas defesas estão presentes em quase todos os textos dos apologistas das tecnologias. No entanto, ao abstrairmos o idealismo dos apologistas, as iniciativas criativas com as tecnologias da informação e da comunicação nas escolas ainda estão engessados pelo currículo, o ritual das aulas (Kenski, 2003) e o controle social das instituições, que se efetiva pela falta de mobilização da escola-comunidade. As elites, porém, fazem muito bem a sua parte ao utilizá-las com sua potência máxima em seus meios de comunicação e negócios e ao impedi-las nossa utilização, ao mesmo tempo em que desenvolvem todo um discurso em torno da sua “importância” para a educação, a socialização do conhecimento etc. Com efeito, embora rádio comunitária não seja crime – esta defesa está muito bem feita no livro de Armando Coelho Neto (2002) –, sua difusão está ideologicamente criminalizada. As classes dominantes têm a consciência do potencial da radiodifusão, tanto que criminalizam quase todas as iniciativas de caráter popular com rádios comunitárias, rádios-piratas ou até mesmo um sistema simples de rádio-poste. Mas, o que de fato está ocorrendo na escola com as iniciativas em radiodifusão? As observações na rede pública do Estado da Bahia detectam que as instituições experimentam as linguagens radiofônicas presas a ações com aparelhagens de rádios como simulacro do rádio: um sistema de som com pouco alcance social, sem interatividade com a própria escola e com a comunidade na qual está inserida. A rádio, quando muito, “entra no ar” nos intervalos das aulas, como um apêndice da escola. Por quê? No engenho de reprodução da escola, no seu mundo compartimentado das disciplinas, não há tempo para a produção pedagógica com rádio e, por extensão, com a utilização inteligente das tecnologias da informação e da comunicação. Eis o desafio: como alcançar as potencialidades da radiodifusão na escola sob o limite da simulação, sob as grades das disciplinas e dos tempos de aula? Com efeito, as proposições de construção da aprendizagem com rádio na escola – em que pesem algumas significativas experimentações – estão ainda no plano das intencionalidades, mas as escolas já conquistaram condições, através das lutas dos professores para inserir suas práticas em seus projetos pedagógicos em ações político-educacionais com a comunidade, necessitando, no entanto, tomar a iniciativa de quebrar a cultura de uma educação somente voltada para a transmissão. Eis o cerne do problema. Ao se restringir a radiodifusão somente à simulação, logo estas práticas – mesmo ricas – caem na escolarização, ou seja, na reprodução, na coisa mesma para nota. É o que se observa em diversas iniciativas com rádio na escola. Quando o sistema não vai à falência, pela repetição das práticas ou pelo sumiço dos seus aparelhos, a desmobilização dos professores e alunos. Há uma tendência à imitação dos ritos das grandes mídias e dos seus locutores, à reprodução das suas músicas e ícones e, o que é mais grave, à alienação dos seus instrumentos por grupos ou pessoas, o establishment das instituições. Essas constatações nos convenceram da necessidade de inclusão do rádio numa perspectiva muito mais ampla: avançarmos da rádio escolar (simulacro de rádio, aparelhos) para a rádio comunitária (rádio da escola com a comunidade, meio), o que exige uma disputa institucional por freqüências próprias, numa luta político-pedagógica que está a exigir o protagonismo dos agentes da escola e dos agentes comunitários, contribuindo para a democratização dos discursos e das visões de mundo. Este procedimento ganha ainda mais relevância considerando que o nosso país tem uma cultura tradicionalmente autoritária, com a agravante da limitação do acesso aos meios de comunicação. São duas as concepções básicas para essa proposição. A primeira está relacionada com a veiculação e apropriação da mensagem: a) o feedback alimenta a produção e cria o movimento da sua inovação permanente, como um “adversário” crítico. A segunda está relacionada com os principais atores da produção: b) os jovens querem viver as experiências e não apenas projetá-las. Ou seja: eles têm pressa de viver o mundo presente, a vida presente, e a escola deve se tornar o espaço mesmo das suas realizações. As hipóteses defendidas neste artigo têm como base empírico-teórica experiências como pesquisador e ativista com rádio em diversas unidades de ensino na rede pública da Bahia, no movimento por rádios livres, na instalação e operação de rádio comunitária, na orientação de monografias sobre rádio como instrumento pedagógico e em consultorias para Associação de Comunicação Comunitária do Calabar.

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DOI: http://dx.doi.org/10.25247/2447-861X.2008.n229.p64%20-%2073

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