UPERANDO A ANTÍTESE CIDADE/NATUREZA: PLANEJAMENTO AMBIENTAL DOS QUINTAIS DE PIRAJÁ (SALVADOR, BAHIA)

Fábio Angeoletto, Marta Moreno, Patricia Guimaraes Pinheiro, Sara Barrasa Garcia

Resumo


Os últimos anos registram um crescente interesse por um corolário de questões conhecido como Problemática Ambiental. Ressalte-se que tal interesse não é manifestado apenas por parte das universidades e dos institutos de pesquisa, mas também por outros setores da sociedade, como as Organizações Não-Governamentais (ONGs). No discurso dessas entidades ambientalistas, uma grande ênfase é dada às questões ecológicas globais, como a destruição da camada de ozônio e o desmatamento das florestas tropicais, entre outras. Entretanto, pouco se discute sobre as cidades, como se seus problemas não guardassem relação com a preservação do ambiente: seriam problemas urbanos; inerentes à urbanização, e não problemas ambientais. É ainda corrente a idéia de natureza como natureza bruta ou museu natural. Ocorre que, como afirma Anne Spirn (1995: 20), não existe natureza em estado puro, e mesmo os mais recônditos ecossistemas sofrem influência antrópica, direta ou indireta. O cidadão comum partilha desse ideário: para ele, a natureza situa-se fora dos limites da cidade: são as praias paradisíacas que o recebem nas férias ou a mais inatingível floresta tropical, salva da mácula do urbano. Assim, no imaginário da sociedade brasileira a questão ambiental refere-se a problemas de uma ordem distante, como as chuvas ácidas. Tim Campbell (1992: 191) não esconde a ironia dessa situação distorcida: enquanto problemas imediatos, circunscritos ao ambiente mais próximo (a casa, o bairro), como a falta de saneamento, são freqüentemente ignorados por grupos ambientalistas e poderes públicos, as atenções internacionais voltam-se para questões como o buraco na camada de ozônio. Quando o tema Ecologia é mencionado, salta aos olhos o fato de que poucas referências são feitas ao problema árboreo nas cidades, como se os problemas ecológicos só existissem fora do perímetro urbano. Quando há, o planejamento é pouco eficiente no tocante ao aumento e conservação das árvores urbanas. Em suma, enquanto cresce a preocupação com o ambiente, ainda enxerga-se a cidade como um lugar de negação da natureza. Entre os urbanistas também persiste a crença de que cidades são a antítese da natureza. Essa crença dominou a forma pela qual a cidade é percebida e continua a afetar a forma como ela é construída. Nas palavras da bióloga Maria Angela Leite (1994: 140), as práticas do urbanismo não fazem uso do conjunto de características naturais e sociais de um lugar – da natureza desse lugar – para avaliar, selecionar, emitir juízo ou implantar concepções de organização urbana, mas parecem procurar perpetuar, numa atitude temerária, a reprodução de modelos parciais, generalizantes e dogmáticos que, apesar de reduzir a natureza ao urbano, não têm a capacidade de integrar o natural e o construído A negação da cidade como uma parte da natureza constitui o que Antonio Carlos Diegues (1996: 13) classifica como mito moderno da natureza intocada. O conceito de natural/selvagem é fundamentalmente uma percepção urbana. Daí a dicotomia urbano/natural, constituindo o natural aquelas áreas que devem ser preservadas como templos intocáveis. O ideário a que se refere Diegues transparece na análise feita por ele em documentos do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) dos anos 80, onde descobriu-se que a referida instituição propunha até mesmo a retirada de populações tradicionais (como ribeirinhos, caiçaras e indígenas) das reservas ecológicas, ignorando o conhecimento e manejo centenários das florestas que esses povos possuem.

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DOI: http://dx.doi.org/10.25247/2447-861X.2007.n228.p74%20-%2083

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