SALVADOR EM 1968: UM BREVE REPERTÓRIO DE LUTAS ESTUDANTIS UNIVERSITÁRIAS

Mauricio Brito

Resumo


No início do ano letivo de 1968, levando uma carroça puxada pelos calouros, estudantes de Economia da Universidade Federal da Bahia (UFBA) interromperam o tráfego no centro de Salvador. Queriam dar visibilidade ao trote. Atividade presente na cultura universitária, o trote era uma maneira dos alunos antigos – veteranos – acolherem a chegada daqueles recém aprovados no vestibular – os chamados calouros. Junto à comemoração da entrada de novos colegas no curso, os jovens também queriam protestar. O conteúdo das críticas pode ser percebido pelos dizeres de um dos irônicos cartazes: “Quem nasce no Vietnã – Vietnamita. Quem morre – americano”. Além do trote, no caso da UFBA, o Diretório Central dos Estudantes (DCE) e a União dos Estudantes da Bahia (UEB) chegariam a lançar uma apostila com um histórico da Guerra do Vietnã e sua importância política, concluindo que “a nossa solidariedade a este heróico povo comprova o nosso repúdio aos intervencionistas e exploradores, que são os mesmos aqui e lá” (UEB/DCE, s.d.). Diversos diretórios realizariam cursos e debates enfocando a questão. Um ex-estudante membro do Diretório Acadêmico (DA) afirmou que, certa vez, um colega buscou hastear uma bandeira pró-Vietnã na Faculdade de Filosofia. No plano nacional, estudantes cariocas foram processados pela Justiça Militar por terem pichado frases alusivas à guerra: “Viva Vietcong”; “Vietcong aponta o caminho”. Já na Universidade de Brasília (UnB) houve algumas assembléias com a bandeira do Vietnã decorando a mesa, simbolizando e homenageando a resistência antiimperialista. Não precisamos de mais exemplos para enfatizar sem meias palavras: a resistência vietnamita constituiu-se numa referência para os estudantes mais engajados no cotidiano do Movimento Estudantil (ME), sobretudo em 1968. Nesse mesmo ano, diversos países foram sacudidos por manifestações estudantis (cf. Martins Filho, 1996). Para os propósitos deste texto, não nos interessa fazer ampla discussão sobre o tema. Basta ressaltar que “1968 foi um ano de paixões desenfreadas em todo o mundo. Seria difícil inventariar as influências. Mas é possível ressaltar certas linhas de força” (Reis Filho, 1998, p. 32). O trote político anunciado na introdução já demonstra que estas linhas de força impactaram, no Brasil não o deixando imune aos terremotos políticos protagonizado por jovens. Em 1968, o golpe de 1964 completava quatro anos. Vivia-se sob a égide de uma ditadura militar e Arthur da Costa e Silva presidia o país. Setores que tinham apoiado o golpe acreditando que os militares voltariam aos quartéis depois de destituir os civis e os supostos comunistas já somavam forças junto à oposição. De outro ângulo, após a repressão e envolvida ainda num intenso debate sobre as causas da derrota em 1964 e as perspectivas de luta, a esquerda vivia cisões, rachas, fusões e algumas das suas correntes já vislumbravam ações armadas para enfrentar a ditadura. Quanto ao ME, após ter suas entidades representativas desestruturadas e muitos ativistas destituídos, já atingia outro patamar organizativo a partir de situação ímpar. Aprovada no final de 1964, a Lei Suplicy tornava ilegal a União Nacional dos Estudantes (UNE) e as entidades estaduais e visava quebrar a autonomia do ME. Todavia, paradoxalmente, foi fundamental para a reorganização da UNE e dos DAs, uma vez que havia setores que eram anticomunistas mas defendiam o direito à organização estudantil. Desse modo, desde 1965 a UNE realizava seus Congressos e, em 1968, a esquerda já havia retomado a direção política da entidade. Para além da esfera organizativa, os anos de 1966 e 1967 foram marcados por lutas estudantis contra a repressão, a política educacional do governo e as anuidades, dentre outros. No caso baiano, estes mesmos anos também foram palco de protestos comuns envolvendo secundaristas e universitários, com destaque para as lutas pela liberdade de expressão e contra a repressão cultural no Colégio Central (1966) e contra a cobrança de mensalidades no ensino secundário em 1967 (cf. Benevides, 1999; Brito, 2003 e Dias, 2001).

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DOI: http://dx.doi.org/10.25247/2447-861X.2007.n225.p49%20-%2066

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