ANGOLA: A CONSTRUÇÃO DE UMA NAÇÃO

Juvenal De Carvalho

Resumo


As pontes que ligam os dois lados do Atlântico são maiores do que se costuma pensar aqui no Brasil. Isto é mais forte ainda quando se pensa na região que hoje é conhecida como Angola. Através dos portos de Luanda e Benguela muitos dos nossos antepassados foram enviados pelos traficantes de escravos para este lado do Oceano. Um comércio sistemático que, com períodos de maior ou menor intensidade, durante três séculos ligou os dois mundos na formação de um complexo produtor de açúcar em uma margem com a mão-de-obra fornecida pela outra margem deste “rio chamado Atlântico”. Ao transportar pessoas, esse comércio colocava em circulação suas crenças, valores, hábitos, formas de ser, de pensar e agir, em fim, colocava em contato suas variadas culturas. O Brasil de hoje é fruto dos confrontos e das trocas provocados por este contato. As ligações entre as duas margens do Grande Rio não são apenas de ordem econômica, como um certo campo historiográfico defendeu por muito tempo. A influência africana se manifestou, e continua se manifestando, em todas as dimensões da vida nacional. Por exemplo, a organização de entidades do movimento negro nos anos 1970 foi influenciada, também, pelas lutas de independência nas colônias portuguesas que se desenvolvia no mesmo momento. Peço licença aos poetas para lembrar de um pensador e dirigente angolano deste período, que afirmou: “não basta que seja pura e justa a nossa luta. É preciso que a pureza e a justiça exista em cada um de nós”. Um pensamento que motivou muitos ativistas deste lado e que me parece muito apropriado para o momento que vivemos aqui no Brasil. Nesta perspectiva, considero que as reflexões sobre a construção de uma Nação em Angola podem ser úteis para pensar também a construção de uma Nação aqui no Brasil. As dimensões continentais do território, as profundas desigualdades sociais e econômicas, as disparidades regionais, a imensa diversidade cultural, as estruturas de poder extremamente hierarquizadas, com um Estado autoritário, excludente e corrupto, são alguns dos dilemas para quem deseja pensar em uma Nação brasileira diferente desta que existe hoje, herdeira direta dos modelos coloniais que as classes dirigentes de mentalidade branca, euro-ocidental, fazem tudo para manter. Acredito que o Brasil ainda não resolveu esta questão, logo, a reflexão sobre o desafio de construção da Nação angolana pode oxigenar a nossa trajetória. Portanto, falar de Angola é tratar de um país que muito nos deu no passado, no presente e, certamente, muito pode contribuir na construção do nosso futuro também.

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DOI: http://dx.doi.org/10.25247/2447-861X.2006.n224.p65%20-%2073

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