IMPLICAÇÕES SOCIAIS DE PRÁTICAS EMPRESARIAIS DITAS “SUSTENTÁVEIS”

Márcia Maria Andrade De Carvalho

Resumo


Em meados da década de 1970 percebeu-se que o desenvolvimento no modelo em vigor, como sinônimo de crescimento, ou seja, aumento de bens materiais, medido pelo o Produto Nacional Bruto (PNB), articulava apenas alguns beneficiários. O desenvolvimento baseava-se no crescimento da economia de mercado às custas da destruição de outras economias, como a economia dos processos naturais e a economia da sobrevivência humana. A partir de então, portanto, foi percebido como destruidor da estabilidade ecológica e das fontes de subsistência dos povos, embora tivesse prometido gerar abundância e eliminar a pobreza. No Terceiro Mundo, conforme Vandana Shiva (2003: 28-31), converteu-se em fonte de pobreza ao provocar a destruição dos meios de subsistência e dos sistemas de manutenção da vida. Daí surgiram propostas para o desafio de conceber um desenvolvimento mais distributivo. A Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), a Conferência sobre Trabalho, Distribuição de Renda e Progresso Social da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e o Banco Mundial foram instituições que tentaram conceber propostas de desenvolvimento que levassem em conta todos os aspectos da vida dos grupos humanos. Cerca de dez anos depois o desenvolvimento sustentável surge como proposta da Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (CMMAD) como agenda global para mudança a ser apresentada na Assembléia Geral da ONU, em 1983. A Comissão teria sido constituída com o objetivo de propor estratégias ambientais de longo prazo para obter um desenvolvimento sustentável por volta do ano 2000 e daí em diante. As principais áreas trabalhadas foram energia, indústria e segurança alimentar. A agenda foi publicada em forma de relatório, que ficou conhecido como Relatório Brundtland, apresentado à Assembléia Geral da ONU em 1987. De acordo com o relatório, acredita-se que os homens podem construir um futuro mais próspero, mais justo e seguro. Ele vê a possibilidade de uma nova era de crescimento econômico, que tem de se apoiar em práticas que conservem e expandam a base de recursos ambientais. A esperança está condicionada a uma ação política decisiva. Afirma-se que é chegado o momento de tomar as decisões necessárias a fim de garantir os recursos para o sustento desta geração e das próximas. A partir de então muitos projetos e programas de desenvolvimento sustentável têm sido implementados. Na Bahia, podemos citar, a título de exemplo, o Projeto Áridas (1994) e os Programas de Desenvolvimento Regional Sustentável (PDRS) da Chapada Diamantina (1997), do Oeste da Bahia (1997) e do Sul da Bahia (1997). No caso analisado por Clóvis Caribé (2001), relativo à região Oeste do Estado da Bahia, por exemplo, o ciclo de crescimento econômico não integrou a região, resultando em espaços onde os indicadores sociais são negativos, embora os indicadores econômicos sejam positivos. As propostas se apresentavam desvinculadas da história regional e as populações locais apresentavam resistência às implementações. Não se conseguiu melhorar as condições de vida das comunidades humanas, com melhor distribuição territorial dos assentamentos humanos e das atividades econômicas. Os investimentos públicos não obedeceram a uma lógica dos interesses gerais e visaram a lucratividades das grandes corporações. As políticas públicas não incentivaram a geração de emprego e renda para todos. Segundo Caribé, a região, “que teve parte de seu espaço produtivo reformulado a partir do início da década de 1980, contando com fartos recursos públicos e privados”, mantém padrões de pobreza para a maioria da sua população. Na maior parte dos espaços há violência, prostituição infantil, drogas, ruas sem asfaltamento e com esgoto correndo a céu aberto: “é impossível considerar sustentável tal região ou um subespaço desta região”. A noção de “sustentabilidade” tem múltiplos sentidos. Diz Henri Acselrad (1997: 192), permitindo sua associação a distintas representações e valores. A imprecisão deste conceito sugere não haver ainda uma hegemonia estabelecida entre os diferentes discursos. Ao contrário dos conceitos analíticos voltados para a explicação do real, tal noção está submetida à lógica das práticas que se pretende realizar. O referido autor descreve alguns dos sentidos a ela aplicados: eficiência na utilização dos recursos do planeta, estabelecimento de limites quantitativos ao crescimento econômico (relacionando-se ao sentido de escala), eqüidade (no qual articula-se justiça e ecologia), auto-suficiência (segundo o qual as comunidades seriam sustentáveis por desenvolverem relações tradicionais com o meio físico natural de que depende sua sobrevivência) e, finalmente, ética na contenção racional dos desejos. Essa multiplicidade de sentidos revela-se como uma parte das dificuldades de discutir e analisar o desenvolvimento sustentável. Torna-se imprescindível determinar um contexto social de abrangência, ou seja, o espaço e o tempo, e identificar agentes portadores do discurso, que produzem a crença na sustentabilidade das práticas, bem como os agentes que estão em posição de criticar tais práticas. Isto porque tal termo não tem atributos teóricos e práticos definidos, parecendo-se mais com a expressão de algo que se pretende realizar, algo que está sempre em projeto, do que com alguma prática objetivada. A outra parte relaciona-se à carga de ideologia e de valores que ele pode conter. No caso do desenvolvimento sustentável, é evidente que a ideologia do desenvolvimento, do progresso e do crescimento, de forma universal, bem como os valores das sociedades industrializadas, tem um peso preponderante, sendo imposta como um padrão com pretensão de validade global, o que nos leva a questionar se o termo “desenvolvimento sustentável” pode, em algum sentido, significar mudança. Apesar das dificuldades, observa-se que a sustentabilidade tem sido bastante aludida em instâncias que compõem a sociedade contemporânea, tais como a academia, a economia e o governo, tanto em nível nacional como internacional, como uma saída para os problemas do desenvolvimento e como promessa de satisfação das necessidades presentes, “sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem as suas próprias necessidades”, conforme consta no relatório Nosso futuro comum. No entanto, não se pode dizer que se tenha determinado os caminhos para a verificação dos efeitos sociais de práticas empresariais ditas sustentáveis, permanecendo sem resposta questões cruciais, como: como é possível discutir e analisar criticamente os resultados do “desenvolvimento sustentável” implantado em determinados espaços e tempos? de que maneira se pode considerar que práticas “sustentáveis” sejam reais, objetivadas, de maneira que seja possível seu estudo sistemático? seriam as técnicas produtivas que deveriam ser enfocadas por serem tidas como sustentáveis? A dificuldade nesse campo refere-se ao fato de que uma técnica considerada sustentável por determinados agentes e em determinados contextos pode ser vista como insustentável por outros agentes ou em situações diversas. Seriam as afirmações, tomadas por intermédio dos discursos, que devem ser consideradas como demonstração de tomada de posições comprovadoras de que as práticas são sustentáveis? Em função de tais dificuldades, propõe-se um estudo na perspectiva da crença na sustentabilidade das práticas como o cimento que possibilita a construção da sustentabilidade, ou seja, uma prática seria considerada sustentável se os agentes entendem-na como tal e acreditam na sua especificidade. Isso nos remete a pensar que os agentes necessitam estar envolvidos culturalmente para compartilharem um sentido para a sustentabilidade. Nesse processo de envolvimento cultural não se pode prescindir de práticas comunicativas. Dito de outro modo, é por intermédio da comunicação, mais especificamente do discurso, que a crença na sustentabilidade é proposta e reiterada aos agentes. Conforme Norma Fairclough (2001: 25), muitas mudanças sociais não envolvem apenas a linguagem, mas são constituídas de modo significativo por mudanças nas práticas de linguagem. Isso implica que o discurso tem uma relação ativa com a realidade, que a linguagem significa a realidade no sentido da construção de significados para ela, em vez de o discurso ter uma relação passiva com a realidade, com a linguagem meramente se referindo aos objetos, explicando ou descrevendo os objetos. Nesse sentido, o discurso do desenvolvimento sustentável não tem objeto, não há um desenvolvimento sustentável concreto observável que tenha sido a origem do termo. Pelo contrário, o termo existe para construir um significado, ou construir um objeto. Este texto tem como objetivo trazer para o debate sobre a sustentabilidade do desenvolvimento uma contribuição acerca das implicações do discurso do desenvolvimento sustentável no contexto social regional. Trata-se, mais especificamente, de uma interpretação das implicações sociais da noção “sustentabilidade” e da expressão “desenvolvimento sustentável” utilizadas na região Extremo Sul do Estado da Bahia pela agroindústria de papel e celulose.

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DOI: http://dx.doi.org/10.25247/2447-861X.2006.n223.p55%20-%2068

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