NEO-REFORMISMO E FRAGMENTAÇÃO SOCIAL (OU SÓ É “OTIMISTA QUEM QUER”)

Nelson Oliveira

Resumo


Desde o fim da ditadura militar, entre os que, de algum modo, se opunham ao regime e até lutavam abertamente contra ele, dois hábitos foram amplamente se disseminando e ganhando força como quase-ideologia política. O primeiro, de sacralizar a esperança, ou permanecer esperando que algo aconteça, mesmo quando essa expectativa se mostra muitas vezes impossível  como na peça teatral Esperando Godot  e nem mesmo se acredite, no íntimo, que um dia iria ou chegue a acontecer; o segundo, de sacralizar o direito, ou considerá-lo como ante-sala da justiça, numa clara apologia da passividade, ou de esperança passiva, nas palavras de Ernest Bloch (1880-1959). A esperança de que um dia as coisas teriam que mudar somava-se à crença de que tinha-se direito, assim quase naturalmente, a um quinhão na quota de distribuição social, como se os regimes políticos simbolizassem ora uma fonte de restrição, ora uma fonte de possibilidade de realização de direitos naturalmente humanos ou sociais. Esses hábitos ou esperanças quase religiosas perpassam não apenas indivíduos mas os diversos movimentos sociais e frentes de luta, servindo de bandeira para quase todos os envolvidos nessa nova etapa de construção de uma realidade mais democrática, assentada em pretensos novos valores. O poder como via transformadora das condições sociais se revela fonte do direito e da justiça social. Poder neutro, dependente, para sua eficácia, da vontade e do caráter dos que dele se apropriassem. Não por acaso, o país passou a viver de sobressaltos. As classes dominantes, em sua eterna vigilância conservadora, desunidas muitas vezes como frações de controle dos processos reprodutivos, se unem em torno de um único desiderato de assenhoramento das estruturas de poder decisório; as classes trabalhadores, em seus diversos matizes, sonhando com um poder, mas sem projeto próprio, descambam muitas vezes para a construção de ilusões que as tornam simplesmente presas de aventureiros e salvadores, destes que costumam aparecer a cada período eleitoral. O alvo era o mesmo, quer fossem vitoriosos partidos de características mais à esquerda, quer os mais à direita. Busca-se tão-somente alcançar o poder, sem uma dimensão mais precisa de seu significado. Para tanto, valendo tudo, dos discursos mais radicais às alianças mais espúrias. Um dos argumentos centrais desta análise é que, em função de suas especificidades, muito mais do que nas gestões de centro-direita que sucederam o regime ditatorial pós-1985, no governo do Partido dos Trabalhadores (PT) e de seus aliados ilusões populares cultivadas por anos de repressão e de impedimentos à livre organização popular foram determinantes para uma fuga acelerada da política no sentido mais profundo, e para a crença nos milagres administrativos, dissociando-se cada vez mais a política do conflito, por meio de sua aproximação muito sintomática com a necessidade de obtenção de consensos, não apenas promissores como eficazes do ponto de vista da reprodução sistêmica. No caso mais específico do PT, sua decisão de manter-se dentro das linhas já traçadas de antemão pelo antecessor imediato parece demonstrar essa opção, não como uma incoerência ou abandono de uma perspectiva, mas como atitude política coerente de um partido reformista que não vê na confrontação o caminho mais acertado para mudanças (assim como estas passam a ser entendidas). Ao reduzir, como fez, a proposta de ruptura a um puro anacronismo, e seguir os passos da nova social-democracia européia, com a qual passa a manter vínculos ideológicos informais, passa a desvendar uma nova faceta administrativa, apegando-se a dois pontos fundamentais para a nova identidade que procura construir que, no fundo, revelam a identidade que procura assumir: à estabilidade como condição para a harmonia entre os diferentes interesses e à harmonia como pressuposto de um crescimento sustentável.

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DOI: http://dx.doi.org/10.25247/2447-861X.2006.n221.p4%20-%2028

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