PASTORAL POPULAR E MOVIMENTOS SOCIAIS

Cláudio Perani

Resumo


Apesar de reconhecer o crescimento da pastoral popular, não é fácil avaliar sua caminhada na atual conjuntura. Há confusão, incertezas, desencantos, diferentes orientações criando um clima que dificulta uma discussão mais objetiva. A única certeza, na qual todos se encontram, é a situação de fome da grande maioria da população que luta pela sobrevivência, sem conseguir encontrar caminhos que permitam apontar para uma mudança mais ampla. No quarto ano de sua existência, a "Nova República" revela-se claramente com sua política autoritária e com seu modelo econômico que continua favorecendo uma elite extremamente reduzida. Algo mudou no nível institucional, mas são mudanças que não alteram a atual correlação de forças. O movimento popular e os canais políticos dos trabalhadores vão se desenvolvendo, deixando aparecer, contudo, o limite de seu poder e a distância da grande massa marginalizada. Não é para estranhar que também no âmbito da pastoral popular se constate uma situação de crise e de incertezas que se prolonga faz alguns anos. Avanço ou retrocesso da pastoral? Parecem aumentar as vozes que falam de retrocesso ou de esvaziamento. Há, porém, pareceres diversos que dependem de vários pontos de vista, de abordagens diferentes. A questão da relação fé-política, equacionada de maneiras diferentes, certamente influi. As interpretações, ainda hoje veiculadas, que consideram a pastoral como tendo só uma tarefa "supletiva" no campo social em nada contribuem para enfrentar a nova conjuntura. Nesta situação, não pretendo apresentar uma avaliação mais global da pastoral popular. Tarefa importante, mas difícil. Simplesmente desejo levantar alguns questionamentos e expressar um parecer sobre o atual relacionamento da pastoral popular com os movimentos sociais. Deixo de lado a interferência da hierarquia neste campo; há novidades que devem ser consideradas, porque revelam uma estratégia global de controle que pode ter sua importância e suas consequências quanto ao futuro da pastoral. Mas já há vários esclarecimentos sobre o assunto. Deixo, igualmente, de lado a novidade representada pela maior presença, no âmbito da pastoral, de projetos de "produção comunitária". aparecem hoje com maior urgência pela situação dramática de fome em que o povo vive e como uma das maneiras organizadas de luta. É uma novidade importante, mas exige um espaço próprio de reflexão, limitando-me à relação da pastoral popular com os movimentos sociais, não pretendo considerá-la do ponto de vista mais teórico da "relação fé-política". A literatura da Teologia da Libertação já avançou bastante neste ponto. Baseio-me, evidentemente, em pressupostos teóricos que podem ser explicitados e questionados. Somente no fim do artigo resumo algumas reflexões do teólogo salvadorenho Ignácio Ellacuría, numa perspectiva mais teórica. Limito-me a considerar a prática concreta em andamento, onde vejo aparecerem novidades que não me parecem suficientemente analisadas e avaliadas e levantam certas preocupações. Há, evidentemente, as tensões de sempre entre a tarefa da Igreja e o compromisso político, entre a atuação das instituições de representação popular e as "massas", entre as organizações da Igreja e aquelas não vinculadas à Igreja, etc., mas recolocam-se de forma diferente na nova conjuntura, revelando mais claramente acertos e impasses. Meu questionamento se dirige, sobretudo, aos agentes de pastoral e aos assessores que têm uma grande influência na orientação da pastoral. Do ponto de vista dos membros das pastorais, é mais difícil ver e equacionar esse problema, tendo em vista que o engajamento na Igreja e nos movimentos sociais podem se confundir na mesma pessoa. Convém explicitar brevemente meus enfoques político e teológico. Do ponto de vista político, privilegio o poder popular, o poder das massas, procurando detectá-lo no dia-a-dia da vida do povo e reconhecê-lo em suas próprias formas de luta; o problema da organização deve ser equacionado a partir daí., Do ponto de vista teológico-pastoral. dou referência a uma linha mais "ecumênica” do que "militante". A primeira privilegia o diálogo com os outros, sobretudo com os pobres, não a partir de fora, de um modelo pré-estabelecido apoiado nos recursos da fé, mas a partir de dentro, operando conjuntamente na procura de novos caminhos com as outras pessoas e os outros grupos; a segunda privilegia a presença política, no sentido de o movimento pastoral ou de cristãos, ficando bem definido do ponto de vista da fé, procurar assumir programas políticos mais concretos, chegando a confundir-se com determinadas tendências políticas ou a colocar-se em oposição a elas. Tais enfoques são evidentemente relativos: podem facilitar certos questionamentos, ao mesmo tempo em que mostram seus limites para interpretar uma situação bem complexa e diversificada, onde várias tendências devem concorrer para um avanço. A intenção, contudo, não é de alerta para a pastoral popular moderar seus caminhos, mas, ao contrário, de estímulo para que ela possa avançar mais, com coerência sempre maior, na linha de uma concreta opção pelos pobres.

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DOI: http://dx.doi.org/10.25247/2447-861X.2009.n233.p107%20-%20116

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